quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O amor é sexualmente transmissível

Estou lendo ''Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios", de Marçal Aquino. E queria registrar aqui essa passagem: "[...]Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro dos filósofos do amor. É normal, saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas. Ela baixou a cabeça, tocou o canto dos lábios com a foto. E pensou no assunto por um segundo e meio. Então compreendeu o jogo. E o aceitou.Vamos fazer um negócio mais justo, disse. Eu troco esse porta-retrato por uma das suas fotos, o que você me diz? Chang riu. A mão era grande, maciça; o aperto, delicado. Os imensos olhos escuros me espreitaram - sorriam por ela. Eu pagaria para fotografar aquele rosto. [...] Ela guardou o dinheiro na bolsa e então me encarou. Ouvi uma sereia ao longe. Passo lá uma hora dessas. Telefono antes. Quando você quiser, eu disse. Ela se despediu e saiu para o sol da tarde. Um choque de luminosidades. Eu me encostei na porta para vê-la se afastando. Chang apareceu do meu lado. Sabe quem é? Não, eu disse. Quer saber? Não, repeti, sem desgrudar os olhos dela. Chang juntou as mãos, estalou os dedos. Você que sabe, ele disse. Prefiro descobrir aos poucos, pensei. Saborear o mistério. Na quadra seguinte, ela atravessou a rua e sumiu no meio da gente miúda que andava pelo centro. Colorida em meio ao cinzento que predominava ao redor. Olhei para o rosto no porta-retrato: tinha uma luz particular, só dela, e um ar de quem poderia ser o que quisesse na vida. [...]" 
Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura.

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